"A casa só cai se Deus quiser", diz moradora que não quer deixar área de risco em Teresópolis (RJ)

Localizado na periferia de Teresópolis, na região serrana do Rio, o bairro do Caleme se tornou uma referência trágica na cidade quando a pergunta é sobre os impactos mais fortes das chuvas de janeiro de 2011. De seus quase 400 mortos na tragédia, o município registrou só lá cerca de 30 óbitos.
Dentro do Caleme, contudo, as marcas mais comumente relatadas pelos moradores estão na rua dos Canários, onde 15 famílias foram dizimadas. Íngreme, como a maior parte das vias estreitas do bairro, a rua termina em um morro de onde pedras gigantes rolaram em janeiro de 2011 e atingiram casas onde alguns moradores ainda dormiam. Era a madrugada do dia 12 de janeiro do ano passado.
Doze meses depois, o UOL esteve no local um dia após os moradores terem discutido, e, asseguraram, quase agredido agentes da Defesa Civil que estiveram na rua para interdição de imóveis.
Apesar de uma encosta próxima, desprotegida e cheia de pedras perto de residências onde moram sobreviventes, muitos não querem deixar a área. Pelos relatos, prevalecem o receio de não ter lugar próprio e fixo onde morar e a incredulidade ante nova ocorrência como a do ano passado.“Minha mãe e meu pai moraram aqui a vida toda; nunca teve algo assim. A rua foi pavimentada depois da chuva [com paralelepípedos], fizeram uma parte de um muro de contenção, mas ninguém vem tirar as pedras que podem rolar. Aí querem nos tirar? Isso é uma sacanagem”, reclama a empregada doméstica Aparecida Ramos, 51. “Faltam é condições de a gente viver sem medo. Porque, com chuva, a casa só cai se Deus quiser”, define.

Apontado pelos vizinhos como líder da resistência às interdições, o pintor Wilson Barbosa, 38, reforça o argumento de dona Aparecida e critica: “Estão achando mais fácil indenizar as pessoas [e com valores com os quais, em geral, elas discordam] do que tirar as pedras. Se é assim, por que reconstruir toda a rua de novo?”, pergunta.

Um ano depois, ruas com lama e ratos Barbosa conta que, já no dia seguinte à madrugada da tragédia, montou guarda com outro vizinho para proteger os bens de quem mora ali. “Além de tudo que aconteceu, dos amigos que perdemos, ainda tinha que evitar os saques. Era uma noite toda de ronda”, lembra.
Tanto na rua dos Canários quanto em outros dois pontos do Caleme, o sistema de alertas por sirenes foi instalado para avisar a população, em caso de chuvas fortes, sobre a cheia do rio. A partir do aviso, elas precisam ser deslocadas a pontos estratégicos no bairro --no caso, a três igrejas evangélicas. No entanto, a eficiência do equipamento não parece ter convencido a população local.
“No começo deste ano choveu três dias seguidos, sem parar. A cidade ficou em estado de atenção. A sirene não tocou. E mesmo no simulado que teve [no final de dezembro], muita gente aqui não ouviu”, afirma o comerciante Vítor Fernando Alves, 47.
A entrevista com Alves foi feita enquanto chovia forte no Caleme. Não precisou de mais de 10 minutos para que o barro de encostas descesse pelas ruas. Próximo a pontes destruídas por completo ou pela metade, o cuidado precisa ser tomado a quem passa de carro pelo local, ante as ribanceiras, e a pé: é comum ver ratos passeando à luz do dia em meio ao lamaçal e perto de tubulações de concreto destruídas.
“Não temos posto de saúde, falta casa popular para quem ficou desalojado, basta chover para todo mundo aqui ficar apreensivo e falta uma ponte decente [há uma provisária de madeira feita por moradores] que permita aos idosos buscar atendimento médico e mesmo ao correio chegar. Nossa resposta a quem deveria cuidar disso vem nas eleições deste ano, pode ter certeza”, avisa o comerciante.

Fonte: Uol
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